quinta-feira, 16 de junho de 2011

DF5 - Disseminação audiovisual 2.0

Publicado originalmente no Overmundo e retirado em 16/06/2011 do endereço:

http://overmundo.com.br/overblog/df5-disseminacao-audiovisual-20

DF5

Longa-metragem Cartão Postal, próximo lançamento da DF5

Rafael Lage · Niterói, RJ

Em 2005, coletivos culturais de quatro cidades brasileiras iniciaram um grande processo de diálogos e parcerias entre seus festivais de música independente - Calango (Cuiabá–MT), Jambolada (Uberlândia-MG), Varadouro (Rio Branco-AC) e Demosul (Londrina-PR) - que culminariam na criação da ABRAFIN (Associação Brasileira de Festivais Independentes).

Naquela época, os produtores ali envolvidos certamente não visualizavam o quão longe poderiam ir. Mas, em pouco tempo, formariam o Circuito Fora do Eixo, que hoje conta com 70 coletivos espalhados por quase todo o território brasileiro (apenas o Maranhão não integra a lista de coletivos) e que fazem circular produções artísticas em linguagens diversas, muito além da música. O modo de funcionamento do circuito e suas formas de sustentabilidade já foram abordados aqui no Overmundo. Este texto foca no trabalho audiovisual, cada vez mais presente no circuito, e permite discutir uma questão central na cadeia produtiva do audiovisual, mas pouco debatida no Brasil: a distribuição.

O grupo de trabalho que responde pela organização do audiovisual dentro do circuito é o Clube de Cinema Fora do Eixo, atuando em quatro frentes: a Comunicação, com as Web TVs que produzem conteúdo e realizam transmissões ao vivo via internet; o Intercâmbio, que realiza um grande número de peças como curtas-metragens e videoclipes; a Circulação, responsável pela SEDA (Semana de Audiovisual) e pelo cineclubismo; e a Distribuição, foco deste texto, representada pela DF5.

DF5 é uma sigla para a palavra “distribuição” somada a “F5”, tecla do computador responsável por atualizar as páginas da internet, termo muito utilizado pelos integrantes do circuito na hora de atualizar ideias.

Como explicam Hiro Ishikawa e Rafael Rolim, coordenadores do Clube de Cinema FdE, a DF5 surgiu da necessidade de ampliar o número de cineclubes do circuito e facilitar a circulação de acervos. Era necessária uma solução para os problemas de logística existentes no Brasil, território de dimensões continentais onde a distribuição pelo correio torna-se inviável, tanto econômica quanto logisticamente. Como relata Rafael Rolim, “de São Paulo para Manaus, a correspondência demora quase um mês por carta registrada”.

A solução encontrada foi um portal que unisse produtores e realizadores de cineclubes. Surgiu assim o site da DF5, onde os produtores fazem seu login, assistem aos filmes e baixam gratuitamente os de sua preferência. A maioria dos filmes é disponibilizada em full HD, podendo ser exibidos com qualidade em um telão de cineclube.

A proposta é viabilizar a distribuição de conteúdo no circuito de forma gratuita e, em contrapartida, apresentar ao realizador do filme relatórios com detalhes das sessões, números de espectadores e de cidades onde foi exibido. Isso permite ao realizador quantificar o que uma produção sua pode atingir e pode ajudá-lo a angariar patrocinadores para próximas obras.

Na opinião de Rafael Rolim, saber que seu trabalho está circulando é um estímulo de extrema importância para o realizador. Ele relata que, quando cursou a faculdade de cinema, em São Carlos-SP, deparou-se com uma boa quantidade de produções que infelizmente ficavam engavetadas, depois de já terem circulado por festivais durante dois anos. “Quem faz curta-metragem manda para festival e, se não entra, fica com aquele material arquivado”, completa Hiro. Então, para os coordenadores do Clube de Cinema FdE, a internet surgiu como uma solução para a distribuição de boa parte deste material, que logo começou a rodar por vários cineclubes do Brasil.

Outra facilidade que a plataforma DF5 oferece é a de mapeamento do circuito e da produção audiovisual. Como ela é um site colaborativo, a possibilidade de se colocar em evidência produções não comerciais que no esquema tradicional de distribuição - concentrado e controlado por grandes empresas, que definem que produtos serão exibidos, onde e por quanto tempo - passariam em branco, é grande. Nesse sentido, Rafael e Hiro fazem um paralelo, por exemplo, com a Programadora Brasil, que oferece um panorama dos clássicos do cinema brasileiro, e explicam o diferencial da DF5, que abre as portas para trabalhos menos comerciais.

“A Programadora Brasil é uma curadoria feita em cima da produção nacional (em torno de 700 filmes inscritos), que entra para o acervo em um processo de eternização das obras. Isso é excelente, mas só acontece através de um edital anual onde você se inscreve e espera que seja aprovado. Na DF5, qualquer realizador pode divulgar seu filme, e quem vai decidir se este será exibido é o programador do cineclube e também o público que o assiste. Com isso, não se limita a possibilidade de que obras experimentais ou até mesmo amadoras venham a aparecer”, declara Rafael.

A exibição dos arquivos de ambas as distribuidoras é gratuita; na Programadora Brasil, os filmes são isentos de Condecine - Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional, embora continuem tendo de pagar a contribuição ao Ecad - Escritório Central de Arrecadação e Distribuição pela exibição das músicas presentes na trilha sonora. Os pontos de exibição associados à Programadora Brasil precisam pagar um valor de R$ 25,00 para adquirir os seus pacotes com 1 ou 2 DVDs (varia de acordo com o DVD em questão), com prazo de exibição de 2 anos.

Na DF5, os arquivos podem ser baixados gratuitamente, e o exibidor associado é estimulado a montar seu próprio DVD, baixando as artes e os filmes diretamente do site da DF5. Assim, os produtos são vendidos a preço de custo, sugerido pela distribuidora a R$ 5,00. ‘Sanca Vice’ (Coletânea de filmes de São Carlos-SP) é um exemplo destes DVDs.

A Programadora Brasil tem um catálogo de 700 filmes e vídeos e lida com sessões de cineclube sem fins comerciais e a DF5 visa à distribuição nacional, com acervo ainda em início (em 2010 foram 66 filmes inscritos, segundo relatório anual).

O mapeamento realizado pela DF5 também se dá no processo de exibição, que é difícil de ser quantificado no meio não-comercial. Hiro diz que, em conversa com o Conselho Nacional de Cineclubes (CNC), descobriu que a Ancine não incorpora em suas estatísticas os dados de público dos cineclubes, utilizando somente os dados fornecidos pelas grandes redes de exibição, como o Cinemark. “A situação fica meio desfigurada, um filme que estreia no circuito comercial nacional brasileiro às vezes faz menos público do que alguns não-comerciais que podem ter sido vistos por diversas pessoas. Mas você nem pode usar esses dados”, acentua Hiro.

A circulação de obras da DF5 também é facilitada por seu licenciamento autoral. Eles se utilizam da plataforma do Vimeo, que automaticamente disponibiliza as obras cadastradas em Creative Commons.

Segundo Hiro e Rafael, a maioria dos produtores de curtas, médias e documentários não comerciais não registra sua obra em lugar nenhum e não pensa no tipo de licenciamento que uma obra pode ter. Muitas das produções que chegam até a DF5 estão pensando pela primeira vez em registro e licenciamento e alguns fazem o upload no Vimeo sem nem atentar para as várias opções existentes.

“A procura pelo registro só acontece quando o filme é patrocinado via lei de incentivo e isenção fiscal (Lei Rouanet e Lei do Audiovisual, em que você é obrigado a mandar uma cópia para a cinemateca e a coloca em um acervo nacional. Não tenho conhecimento de um projeto de registro formal de audiovisual para além do CPB (Certificado de Produto Brasileiro), que é simples, mas custa em torno de 200 reais. A grande maioria dos produtores nem isso faz”, completa Rafael.

O registro de algumas obras em CPB junto à Ancine traz a visão de uma possível comercialização e sustentabilidade do projeto. Para se cadastrar no site da DF5, a obra audiovisual não precisa estar registrada, e o site indica o formato de licenciamento em Creative Commons a ser selecionado. Mas, caso os autores queiram inserir sua obra na cartela de comercialização, dialogando com iniciativa privada e emissoras de TV, o CPB é indicado.

A questão dos direitos autorais precisa ser aprofundada entre os produtores de conteúdo no Brasil. A maioria desconhece que o Creative Commons não anula a validade de registros como o Certificado de Produto Brasileiro, que é exigido quando os filmes são exibidos comercialmente em salas de cinema, canais de televisão e DVDs. Segundo a Programadora Brasil, o CPB é necessário em casos jurídicos como a obtenção da Classificação Indicativa emitida pelo Ministério da Justiça. Já o Creative Commons é um conjunto de licenças que permitem ao autor decidir de que forma quer divulgar e disponibilizar a obra para o público, mas sem abrir mão de seus direitos autorais, dando fundamentos até mesmo para que processe alguma possível violação de seus direitos. Sendo assim, é perfeitamente plausível que qualquer autor registre sua obra audiovisual em CPB e a licencie sob alguma das opções proporcionadas pelo Creative Commons.

Distribuição colaborativa

Com a plataforma da DF5 já criada, ainda que em formato beta, os coordenadores do Clube de Cinema FdE já pensam na criação de um catálogo com produções que possuam registro em CPB, para comercialização com empresas de telefonia móvel, que agora começam a comprar curtas-metragens, ou mesmo parcerias com a Programadora Brasil e emissoras de TV públicas. Estes DVDs também ajudariam na distribuição em estados com internet lenta, como Amapá.

O caráter colaborativo do site da DF5 favorece a distribuição dos filmes, a partir do momento em que o realizador se preocupa em disponibilizar informações sobre sua produção, como resenha, fotos e ficha técnica, possibilitando o interesse de mais exibidores e aumentando suas chances de entrar numa cartela de comercialização. Isso torna o realizador um co-protagonista na distribuição, que, segundo Rafael, é um grande problema estrutural na formação de profissionais de audiovisual no Brasil.

“Eu fiz faculdade de cinema e posso falar com propriedade pois, em quatro anos de curso, nunca tive uma aula sequer sobre distribuição de filmes. Estudei produção, fotografia, hipermídia, história do cinema, mas em nenhum momento se falou em distribuição. Até se apontava as falhas na história do cinema brasileiro, como o famoso filme ‘O Cangaceiro’, que foi vendido pela Vera Cruz a preço de banana para que a Columbia o distribuísse. O filme ganhou milhões no mundo inteiro, permanecendo cinco anos em cartaz na França, mas a Vera Cruz faliu, porque gastou tudo o que tinha na produção e não ganhou nada em sua exibição. Explica-se isso, mas não se dá uma aula de distribuição”, declara.

As políticas de fomento audiovisual no Brasil contemplam a distribuição, como por exemplo, a lei 11505, de 2007. Sobre tais incentivos, o coordenador executivo do Cine Mais Cultura, Frederico Cardoso, destrincha algumas objeções. “A possibilidade de se colocar distribuição no orçamento de um filme está prevista claramente na lei. O problema é que raramente um projeto capta todo o recurso aprovado. Daí, a primeira coisa a ser cortada é o lançamento (ou boa parte). Até faz sentido, pois primeiro o filme tem que ficar pronto. O outro problema é que a produção fica, depois, entre a cruz e a espada. Quer lançar logo o filme, mas se for parar para captar o recurso necessário, vai demorar talvez mais de um ano. E existem editais da ANCINE e da Petrobras para distribuição, exclusivamente. O problema, aí, é que tem muito mais procura que recurso e muitos ficam de fora”.

Neste caso, a distribuição de um filme é essencial quando este ainda não está totalmente pago. "É possível um filme ficar pronto sem a produtora, o diretor ou até mesmo outros profissionais receberem. Daí, a distribuição e o retorno financeiro dela são importantes”, relata Frederico Cardoso, enfatizando o inconveniente da má-formação acadêmica neste quesito: “Temos o problema da formação. No curso universitário que fiz não se tocou no assunto distribuição e não se tocou no assunto exibição e empreendedorismo. Falha gravíssima. E o pior é que não tenho conhecimento de cadeiras em qualquer curso universitário que trate disso, exceto em casos que tratam estes assuntos, vamos dizer, nas entrelinhas ou de forma enviesada, sempre fora de aula”.

A fusão entre o realizador e o distribuidor acaba por ser um grande diferencial na DF5 em relação a outras iniciativas. Hoje no Brasil existem diversas associações na cadeia produtiva do cinema, como ABD (Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas), CNC (Conselho Nacional de Cineclubes),Fórum dos Festivais, ABCA (Associação Brasileira de Cinema de Animação), mas nenhuma delas é focada em distribuição.

Na DF5 o realizador dá o primeiro passo da distribuição, que é compilar as informações necessárias (o filme, fotos, release, ficha técnica) e disponibiliza no site. A partir disso a distribuição é feita no site a partir do dialogo com diversas organizações de exibidores, dentre elas o próprio Clube de Cinema.

“Normalmente, o realizador é um videomaker solitário, que sabe editar, produzir e exibir no bairro dele. Mostramos que o protagonismo não acaba nunca, o filme pode ter uma exposição permanente. Os festivais aceitam normalmente filmes finalizados há no máximo dois anos. Nossa ideia é contrapor a DF5 como acervo permanente de obras brasileiras, independente da idade do filme, o importante é o público ter acesso a elas. Ele pode ganhar o Brasil e também o mundo, porque estamos falando de internet, qualquer um pode fazer o download, tanto aqui quanto na Europa”, completa Rafael.

O Clube de Cinema FdE procura mapear frequentemente os dados de suas exibições. Em novembro de 2010, realizaram dois relatórios nacionais. Até então, a produção mais exibida pela DF5 foi “O Assassino do Bem”, que simboliza os ideais do Fora do Eixo, com seu mote “um filme de todos e para todos”, e a licença Creative Commons exibida nos créditos.

Idealizado por Hiro, em dois meses “O Assassino do Bem” atingiu mais de dois mil espectadores, sendo exibido em oito estados. Foi realizado a um custo baixíssimo (nas palavras de Hiro, a ”suados 400 reais”) pela produtora Filmes para Bailar, parceira do DF5 e do Fora do Eixo, que também finaliza seu primeiro longa-metragem, Delírios de um Cinemaníaco.

"O Assassino do Bem" é um curta-metragem recheado de colagens de situações cotidianas, inclusive propaganda televisiva e músicas veiculadas em rádios FM, o que gera questionamentos no autor em relação aos direitos autorais dos trechos utilizados. “Eu nem sei direito o que aconteceria se alguém quisesse processar o filme”.

Por exemplo, eu o coloquei no Youtube, que agora tem um sistema que reconhece músicas licenciadas, bloqueando automaticamente o som do vídeo. “O Assassino do Bem” ficou com um aviso de que o som pode ser retirado, mas ainda está lá. Até a tecnologia nós conseguimos burlar”, afirma Hiro.

Toda esta política afirmativa dos ideais do Fora do Eixo vai sendo propagada juntamente com as exibições locais, em mostras e debates levados a diferentes circuitos. O mapeamento do Clube de Cinema FdE realizado em novembro de 2010 divulga que, em média, foram realizadas cerca de 60 sessões de cineclubes por mês.

Este ano serão mais de 30 SEDAs (Semana do Audiovisual) em todas as regiões do Brasil, com exibições, shows e workshops ligados à temática audiovisual, até o mês de novembro. E em dezembro acontece o Encontro Nacional do Clube de Cinema FdE, em Belo Horizonte (MG). Está agendado para o dia 15 de junho o lançamento do longa-metragem ‘Cartão-Postal’, realizado pela Cidadela, e com isso, uma modernização do site da DF5.

Centrando sua força nestas ferramentas, o Circuito Fora do Eixo adapta-se com facilidade às questões que surgem com a crescente força da cultura digital, abrindo um grande e atual debate sobre circulação de informação, direitos autorais, software livre e economia solidária. Todas estas questões só tendem a facilitar e viabilizar as ações do circuito, um grande grupo de profissionais que aprendeu a se reinventar, representando assim, esta nova “cara” da força criativa no Brasil.

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