quarta-feira, 9 de março de 2011

Carnaval da Tradição e Multicultural!

Muito bom o texto do Correa. 
Concordo e discordo.
Ele mesmo fala sobre a suposta autenticidade, que somada ao anacronismo nos deixa perdidos entre a ciência, a cultura, o carnaval, o senso comum e o povo.
A hipermoderinidade? Sei lá.
Só sei que o Brasil é o país do carnaval, querendo nós, ou não.
Bruno Bento.


Publicado originalmente por Alexandre Correa no CRISOL – Pesquisas e Estudos Culturais e retirado em 09/03/2011 do endereço:

http://gpeculturais.blogspot.com/2011/03/carnaval-da-tradicao-e-multicultural.html

Causa espécie ouvir anunciado aos ventos, os temas e lemas dos carnavais locais e regionais. São slogans difundidos pela mídia, em diferentes estados do país. No Maranhão, nesse ano de 2011, o lema é `Carnaval da Tradição`! Em Pernambuco, patrocinado pela Band Folia, é `Carnaval Multicultural`!

Trata-se de uma dialética interessante, colocar estes slogans em relação um com os outros. Numa época em que já se fala em Pós-Samba, Pós-Identidades, Desconstrução do Carnaval, etc., é curioso esse jogo de figuras e imagens que cada Secretaria de turismo e cultura dos estados tenta marcar e particularizar - através dos recursos de merchandising e marketing - no grande mosaico cultural e carnavalesco do Brasil. Mas é também uma oportunidade de refletir sobre aspectos pouco comentados acerca da produção simbólica contemporânea.

No Maranhão, ao invocar o signo da `Tradição` somos convidados a pensar sobre o anacronismo dessa fixação desatualizada historicamente. Em pleno processo de mundialização cultural do planeta, é curioso ver um dos estados mais pobres do país, fixar sua produção simbólica na cena patrimonializada, antiga, tradicional, passadista... Ao signo da `tradição` cultuada, somam-se os signos de `raíz`, `passado`, `memória`, `histórico`, etc. Numa época que se investe tanto na `criatividade`, na ousadia, na diferença, é interesssante ver os publicitários e agentes culturais locais ainda investindo fortemente nesse `diferencial` de um `Carnaval da Tradição`! Tem uma dialética rica em antagonismo e contradição; embora, subjacente e inconsciente... Pergunta-se: ser criativo hoje é saber usar o passado, ou a tradição, de forma atrativa para o mercado de consumo cultural? Ser diferente é saber dar valor ao produto antigo, da memória, dos velhos carnavais, da senzala, dos mocambos, das Casa-Grandes, dos tempos da Escravidão? Ser criativo é re-investir e re-significar as heranças do passado (e assim continuar preso a elas indefinidamente)? Que estranha dialética! Parece que estamos em plena crise do futuro, e da própria criatividade: ruínas do tempo pretérito, com sua fantasmagoria a assombrar a mente dos vivos...

Já o `Carnaval Multicultural` de Pernambuco, parece mais próximo de uma imagem contemporânea, pós-moderna, antenada com a alta modernidade, e com o consumo cultural mais sofisticado e diferenciado. `Mas que nada`, um lema como esse, aparentemente `tão legal`, não passa de mais um recurso de efeito, no `museu das grandes novidades` carnavalescas. O Multiculturalismo é a própria expressão ideológica dominante, de um carnaval de segregações e de segmentações de mercado. Adequa-se muito bem as necessidades do mercado consumidor da folia (alegria pré-programa, com hora marcada para começar e terminar).

Tanto no contexto maranhense, quanto no pernambucano (assim como de outras latitudes e regiões) percebemos que aquela forma de `brincadeira` popular, em que circulava os dons e as dádivas, de uma alegria e folia territorializada, já não existe mais: tudo agora é lazer empacotado, agenciado. No momento em que percebemos tanta fixação em cenas pré-programadas, patrimonializadas, produzidas por uma engenharia cultural sofisticada, em busca da satisfação das demandas do mercado, podemos arriscar decifrar o código subjacente: é a própria `alegria`, a própria `felicidade` que se esvaiu; liquefez-se. Aquela `alegria`, ou `felicidade`, supostamente autênticas, vinculadas as cenas do passado, do antigo, dos velhos carnavais e etc., tenta-se vender, e oferecer como produto ao mercado de consumo da felicidade somática ansiosa e eufórica: como se fosse uma pílula de alegria pronta, encapsulada. Aquela capa de alegria e felicidade perdida, pretende-se encontrar no passado autêntico, multicultural, condicionado, segmentado, localizado, territorializado...

Mas é fato que tanto a `felicidade` e a `alegria` do passado, quanto a mercadoria `alegria`e `felicidade` do presente não têm autenticidade alguma; assim como é ingênuo e ilusório considerar essas produções fetichistas como produções simbólicas, ou produções artísticas e criativas... Esses narcóticos eventuais, de transe coletivo, afogado em cerveja e outras drogas mais, não podem ser considerados produção cultural digna de uma política cultural de Estado. Cidades e regiões inteiras que não possuem um corpo de baile, uma orquestra sinfônica, grupos de teatro ativos, escolas de circo, de cinema, de pintura, de arte dramática, etc., não pode considerar `carnaval` como a `Cultura`. As formas de produzir carnaval variam de cultura para cultura, de sociedade para sociedade, mas francamente, o fenômeno cultural é muito mais amplo, complexo e profundo. Engana-se populações inteiras (o que favorece muito as empresas de venda de bebidas) considerar e enquadrar esse tipo de carnaval, na categoria `Cultura`, ou como objeto de `política cultural` (com isenção de impostos pela Lei de Incentivo à Cultura). Esse carnaval é negócio, é business, é empreendimento, é consumo como prática cultural... É preciso fazer as devidas distinções, e perceber os alcances de políticas culturais realmente comprometidas com a cidadania cultural, e com os direitos culturais... 

 

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