terça-feira, 12 de maio de 2009

a palavra em pelo

basta de eufemismos
chega de hipocrisia
de encobrir a linguagem
com a cinza de seus cadáveres
a realidade terrível e trivial
da era da desinformação
do desconhecimento
da ignorância programada
da tirania dos poderosos
de todos os pontos do planeta
"stop" com a demagogia universal
de fantasias fúnebres
com a plumagem das palavras
com a velocidade sem direção
com a aceleração dos sentidos
dos letreiros alumbrosos
em detrimento do espírito
da inteligência
em detrimento da vida na Terra
dos rios de pobreza e destruição
daqui para frente
vale a palavra em pelo
nua em estado de nascimento
em estado bruto
sem ordens obscenas
sem ordenamentos
desdicionarizadas
a palavra originária
anti-pragmática
anti-burocrática
vale o sentido forte
da palavra liberdade
sem culpa
sem desculpas
sem falsos escrúpulos
sem dissimulações
vale a palavra ímpar
todos os seus sons
seus sabores
seus tons
seus dissabores
suas tonalidades atrozes
atônitas combinações

de agora em diante fica acertado
após severas experiências
negociações e acordos bilaterais
pesquisas acadêmicas
deserções e doutrinamentos
de teses de douramento intelectual
em nome do tesão e da vida
bomba é bomba
morte é morte
cego é cego
negro é negro
pobre é pobre
fome é fome
preconceito é preconceito
tração é traição
mercado é mercado
ladrão é ladrão
globalização
é apenas o apelido do imperialismo
capitalismo é capitalismo mesmo
selvagem animal insaciável
de setecentas cabeças
bocas e garras

fica acertado
como politicamente correto
em nome da nova ordem
da falta de projeto universal
da linguagem da sedução
e da alegria
em nome do sonho
de um mundo menos imperfeito
poesia é poesia
justiça é justiça
amor é amor
mídia é mídia
guerra é guerra
grana é grana

fica convencionado
que todos conhecemos bem
o significado das palavras
universidade
governo
monopólio
sacanagem
verdade
estado de desgraça mundial
na cidade e no sertão

fica coletivamente combinado
que toda palavra
antes de ser dita
escrita ou engolida
deve ser lavada
esterilizada
depurada de toda injúria
e injunção
de toda mazela
sintática e semântica
todas as palavras
devem ser cuidadosamente
mastigadas
digeridas
mentabolizadas
sem prótons nêutrons e neutralidades
qualquer outro tipo de evasão

vale dizer
vale a palavra sem lirismo
sem egoísmo
sem analfabetismo
sem malabarismo
sem terrorismo
sem cinismo
sem eufemismo
sem dirigismo
sem fins lucrativos

vale o silêncio
sem aviso prévio
palavra mais interior
em nome de novo oráculo
vale matar
o senhor e o servo
se o vocabulário rio imprestável ao rigor da sede
ao risível desatino humano
não for sincero nem preciso

vale a palavra em pelo
em pleno exercício e plenitude

eu poeta de tudo o que me cerca do fundo deste abismo
assino
e declaro que a partir de agora ninguém nada mais me ilude


joão evangelista rodrigues

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sábado, 9 de maio de 2009